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VAMOS ESCOLHER A VIDA?

VAMOS ESCOLHER A VIDA?

Curioso e surpreendente o contexto do livro do Deuteronômio de onde saiu o lema da Campanha da Fraternidade deste ano: Deus põe diante do homem as duas opções – a morte e a vida – para que ele faça sua escolha com absoluta liberdade. Se tivesse criado o homem para não precisar fazer opções, isto é, para só fazer coisas ‘certas’, o Criador não poderia ter dito ‘façamos o homem à nossa imagem e semelhança’... Entretanto, criando-o com inteligência, vontade e liberdade, obrigou-Se a ter que cuidar dele eternamente, pois, geração após geração, sua criatura predileta tem demonstrado uma capacidade sem limites para desenvolver sua inteligência, exercer sua vontade, pôr em prática sua liberdade – infelizmente nem sempre conforme ‘planejado’... Moeda com duas faces, essa decisão do Senhor levou-O, também, a sofrer em seu coração de Pai as conseqüências dos descaminhos da humanidade que desfigura essa imagem e, de outro lado, a amar infinitamente os que se auto-exilam para longe dessa semelhança, e precisam ser continuamente resgatados, como a ovelha inconsciente ou irresponsável que se afasta do aprisco...

De fato, a cada dia – para não dizer a cada hora e a cada minuto – somos confrontados com tal escolha. Não seria óbvio escolher sempre a vida? Seria, sim, se o pecado não tivesse enchido nossas mentes e nossos corações com incríveis desnecessidades cujo número não pára de crescer: riqueza, poder, beleza, felicidade, exclusividade, posição social, status, bens materiais... A lista seria infindável se cada um de nós analisasse sinceramente a própria rotina para classificar honestamente as próprias escolhas em duas categorias – a favor ou contra a vida, nas suas mais diversas formas e manifestações.

Hoje, os países e os indivíduos acham absolutamente normal desejar enriquecer, não importa como. Competem pela melhor tecnologia ou pelo melhor emprego. Jactam-se de ter descoberto a melhor forma de lucrar ou de investir. Não se perguntam se seu enriquecimento vai empobrecer outras nações ou outras pessoas. Escolhem, pois, a morte do desenvolvimento e da dignidade daqueles que nem de longe consideram irmãos...

O exercício do poder raramente ocorre dentro de critérios evangélicos: os poderosos de plantão buscam locupletar-se, ganhar fama, aproveitar a bajulação, amealhar fortuna ilicitamente, vingar-se de opositores de outros tempos. Escolhem, pois, a morte da decência sem a qual é impossível governar um país, um estado, uma cidade, ou construir o futuro da infância e da juventude.

A escravidão da beleza – outrora característica criticável do sexo feminino – açambarcou os objetivos de pessoas de diferentes níveis socioculturais, levando ao ridículo homens e mulheres de todas as idades, que fazem qualquer sacrifício para ter a aparência da moda. Escolhem, pois, a morte da naturalidade e do cultivo indispensável da beleza interior, a única que permanece quando os artifícios para rejuvenescer esbarrarem com o limite intransponível da natureza que não se deixa aprisionar e segue seu curso indiferente às últimas invenções e descobertas que prometem juventude eterna e, é claro, não cumprem essa promessa...

A felicidade – objetivo natural de todo ser humano – passou a ter diferentes rostos e diversas formas: há os que só serão felizes sendo os primeiros colocados; há os que só encontrarão felicidade ‘conquistando’ a quem talvez já tenha sido conquistado; há os que só conseguirão sorrir ao ver a derrota do inimigo; há os que só se sentirão realizados se se tornarem célebres. Escolhem, pois, a morte do que de melhor o ser humano possui: a capacidade de ser feliz fazendo o bem, sem se importar com a recompensa, pois quem semeia amor colhe frutos de alegria e realização que não duram apenas uma curta estação.

O desejo de status e de uma destacada posição social faz com que os indivíduos sacrifiquem os valores verdadeiros para ser reconhecidos nas ruas, aparecer nos jornais ou na TV, conseguir seus ‘quinze segundos de fama’ em troca da mediocridade. Escolhem, pois, a morte da originalidade de cada ser humano que tem no coração do Pai a invejável posição de filho sobre o qual o amor se derrama diariamente em doses sem limites.

A volúpia pelos bens materiais incentiva a tecnologia a produzir diariamente milhares de novos equipamentos que transformam em lixo o que se adquiriu no mês passado. Mesmo que esses equipamentos sejam supérfluos e não tragam benefícios significativos à vida, são disputados ferozmente pelos que neles enxergam sua razão de viver... Escolhem, pois, a morte da simplicidade capaz de produzir harmonia e desenvolver respeito pelo meio ambiente e pelos recursos naturais submetidos a contínuos processos de destruição.

Será que nos damos contas de que são essas algumas maneiras de escolher a morte? Fácil é abrir os olhos e enxergar os que escolhem a morte anunciada, a que se veste do negro da dor ou do vermelho do sofrimento e se revela na defesa do aborto, no descuido com os velhos, na negligência com a infância, no descaso em relação à juventude, nos atos de terrorismo, nos seqüestros longos e desumanos, nas guerras que se alimentam de ódio e rancor, nas batalhas que não se explicam e sustentam a indústria bélica, na violência urbana do tráfico e do trânsito... Essas são escolhas que os ‘outros’ fazem e nos sentimos no direito de criticar. Aquelas são as que, talvez, nós mesmos fizemos ou fazemos, enquanto não assumimos inteiramente nosso compromisso de conversão.

Podemos mudar tudo! A Igreja de Jesus Cristo, viva e pulsante em nossas terras, nos deu a tarefa de anunciar o Evangelho no Continente, como discípulos-missionários do Senhor. Se escolhermos diariamente a vida – que se demonstra na honestidade, na humildade, no serviço, no desapego, na honradez, no espírito de partilha – desnudaremos naturalmente os horrores das escolhas de morte e, através do nosso testemunho, levaremos os demais a optar pelo Caminho, pela Verdade e pela Vida...

Seremos criticados, ouviremos comentários desairosos, perceberemos risos às nossas costas, receberemos o carimbo de ‘perdedores’, veremos conhecidos se afastarem e nos sentiremos ameaçados de solidão. Não faz mal. Ao final de cada dia, olharemos para o Mestre e ele nos garantirá que, escolhendo a vida, estamos dando sentido à sua paixão, à sua morte e à sua ressurreição.
 

Maria Elisa Zanelatto
Grupo Executivo Nacional
Revista Alavanca Março/Abril e Maio 2008 

 

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